‘Gracias, Colombia’

Terça-feira, 06 de dezembro de 2016

Após a morte de 71 pessoas num acidente aéreo na Colômbia, a Chapecoense é declarada campeã da Copa Sul-Americana de 2016

Imagem: Facebook / Reprodução
Unidos pelo verde nas camisas e pelo preto do luto:
o Atlético Nacional felicita a Chapecoense
nas redes sociais pela premiação
Depois da lição de humanidade que os colombianos deram ao Brasil e ao mundo, por conta do trágico acidente aéreo envolvendo a delegação da Chapecoense, no último dia 28 de novembro, este jornalista que lhe escreveu precisou rever alguns de seus conceitos. Se antes o valor de uma pessoa era medido por seus sonhos, lutas e ideais, acabou de aprender que não é mais assim. A grandeza de um indivíduo deve ser medida, de agora em diante, pelo que se está disposto a renunciar, a perder.

E esse valor não se deve simplesmente ao fato de o Atlético Nacional, time colombiano, ter sugerido à Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmmebol), no dia 30 daquele mês, que a Chapecoense fosse declarada campeã de 2016 da Copa Sul-Americana, feito que aconteceu nessa segunda-feira (5/12) por decisão unânime dos organizadores do campeonato. Com isso, a equipe de Medellín renunciou a um título e a mais de US$ 4,8 milhões, sendo US$ 2 milhões por vencer a Copa Sul-Americana, mais US$ 1 milhão para participar da Recopa e outros US$ 1,8 milhão por participação em três jogos de fase da Libertadores da América. Note-se que não houve reação de protesto. A ideia foi bem aceita pelas torcidas de ambos os lados.

É sabido que a premiação não trará de volta os jogadores da Chapecoense, mas a grana poderá ser usada para a reconstrução do time catarinense ou até mesmo para eventuais indenizações aos familiares das vítimas.

E por seu gesto de generosidade e abnegação, o Atlético Nacional – que de eventual campeão se tornou vice-campeão – foi agraciado com o título de ‘Campeão Fair Play do Centenário Conmebol’, e receberá a cifra de US$ 1 milhão de dólares.

“Para a Conmebol não há maior demonstração de ‘espírito de paz, compreensão e jogo limpo’, enunciado como objetivo de nossa Instituição que a solidariedade, a consideração e o respeito exibido pelo Clube Atlético Nacional da Colômbia aos seus irmãos da Associação Chapecoense de Futebol do Brasil.

Com motivo da petição realizada pelo Clube Atlético Nacional que com sua atitude promoveu o futebol na América do Sul em espírito de paz, compreensão e jogo limpo, na busca de que os valores esportivos prevaleçam sempre acima dos interesses comerciais, o Conselho decide por única vez outorgar ao Clube Atlético Nacional o prêmio ‘Centenário Conmebol de Fair Play’, consistente na soma de um milhão de dólares”, destacou a confederação.

Ao longo da última semana, enquanto os corpos não haviam sido trazidos para o Brasil e os poucos sobreviventes permaneciam internados, os ‘hermanos’ colombianos deram outras mostras de solidariedade: profissionais de imprensa que cobriam o acidente, em frente aos hospitais, recebiam lanche e contavam com a ajuda de alguns tradutores, por exemplo; teve até um taxista que não teria cobrado a corrida do jornalista Fabrício Crepaldi, do Sportv, depois de reconhecer o sotaque brasileiro. Ele seguia para o necrotério.

Os colombianos não foram apenas generosos e solidários. Eles tomaram para si uma dor que poderia ter sido somente nossa, dos brasileiros. Preferiram chorar conosco em nosso luto e lotar um estádio em Medellín para homenagear as vítimas do acidente. Como bem disse o Atlético Nacional nas redes sociais, ‘eles (os jogadores da Chapecoense) vieram (à Colômbia) por um sonho, e partem como lendas’.

O enterro de futebolistas, de profissionais de imprensa e de alguns tripulantes que estavam no avião da LaMia, empresa boliviana, ocorreu no último fim de semana em seus respectivos países.

Este jornalista aqui se pergunta se nós, brasileiros, teríamos agido da mesma maneira se fosse o inverso, se o egoísmo não teria tomado conta do momento e se algum taxista não teria se aproveitado da situação para cobrar mais caro pela corrida. Espera-se que essas indagações fiquem sem respostas.

Se em toda essa tristeza, que demorará a passar, pudesse haver um sorriso, este seria, certamente, o dos atletas chapecoenses, por terem conseguido unir torcidas adversárias para um abraço. Seria bom se esses abraços ocorressem mais vezes, mas em nome da tolerância e de uma competição sadia. O esporte, especialmente o futebol, possui uma linguagem universal e própria e tem por vocação unir pessoas dos mais diferentes times e lugares numa mesma paixão. Espera-se que essa tragédia sirva para mostrar que o futebol está muito além das rivalidades entre Vasco e Flamengo, Corinthians e Palmeiras, por exemplo.

‘Gracias, Colombia’, em espanhol mesmo. ‘Gracias’ pelo enorme carinho com o Brasil e com a Chapecoense – apesar de este repórter não torcer para nenhum time – e pelas lições de vida que nos deste, coisas que o dinheiro não é capaz de comprar. Estamos em dívida e precisamos ser eternamente gratos.

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