Sábado, 01 de agosto de 2015
Governo toma galpões das empresas Polar, Pepsi, Coca-Cola, Nestlé e Cargill, as maiores produtoras de alimentos e bebidas
A guerra do Chavismo não é apenas contra o capitalismo, o direito de propriedade privada e a oposição, mas, também, contra a produção, o desenvolvimento econômico, o emprego e o progresso do país. Na última quarta-feira (29/7), militares venezuelanos tomaram os galpões de grandes empresas como a Polar, Pepsi, Coca-Cola, Nestlé e Cargill, em La Yaguara, oeste de Caracas. As mesmas estão entre as maiores produtoras de alimentos e bebidas da região. A expropriação foi acompanhada pelo Ministério de Habitação, que pretende construir no lugar moradias populares.
A expropriação, principalmente a da Polar, que é a única empresa nacional entre as afetadas, merece especial atenção. Aconteceu um dia após a data de aniversário de 61 anos de Hugo Chávez, quem, em pelo menos duas ocasiões – em 2009 e 2010 –, ameaçou tomá-la. Mais do que a concretização de um desejo, numa visão conotativa aparenta ser uma espécie de presente de aniversário. Note-se que houve uma tentativa por parte do referido ministério no próprio dia 28 de julho.
“Que ninguém pense que nós vamos atuar de maneira arbitrária no Plano La Yaguara”, manifestou o ministro de Habitação, Ricardo Molina.
A ação foi criticada pela Câmara Venezuelana da Indústria de Alimentos (Cavidea):
“(…) Cavidea expressa preocupação pelo risco que corre a estabilidade laboral de milhares de venezuelanos, e alerta sobre as implicações que uma medida como essa tem sobre o normal abastecimento de alimentos na cidade-capital e nas regiões próximas.
Cavidea considera que expropriar e ocupar instalações industriais ativas que geram milhares de emprego e progresso para as comunidades, não contribui com a confiança e a segurança necessária para que a empresa privada siga fortalecendo a produção nacional.
A medida de ocupação atenta também contra a soberania alimentar dos venezuelanos, já que afeta diretamente a operação logística de distribuição de alimentos e bebidas, que é a que permite fazer chegar de maneira eficiente os produtos aos pontos de venda e ao consumidor final”, declarou.
Pelo menos 1.500 postos de trabalho direto e outros quatro mil indiretos poderiam ser prejudicados com a medida. Já as Empresas Polar, representante da Pepsi no país, falam em mais de dois mil empregos afetados. A companhia afirmou que desde a última terça-feira (28), quando o Ministério de Habitação tentou ocupar seus galpões, a produção e o envio de alimentos e bebidas estão paralisados para a Região Metropolitana de Caracas e os estados de Miranda e Vargas.
“Pedimos que se reconsidere esta medida, em vista de que esses centros de trabalho são muito ativos, nos que se presta serviço logístico para abastecer a capital e os estados vizinhos. Não questionamos que se queiram construir casas, que são tão necessárias, porém nos perguntamos por que tem que afetar instalações industriais produtivas”, instou Manuel Felipe Larrazábal, diretor de Polar.
Os venezuelanos estão comendo o pão que o diabo amassou. Além de enfrentar longas em filas em supermercados, convivem com a escassez de alimentos como trigo e leite, por exemplo, e até a falta de papel higiênico. A inflação anual ultrapassa os 60%. A crise se agravou com a gestão do atual presidente Nicolás Maduro, após vencer as urnas em abril de 2013, um mês depois da morte oficial de seu padrinho politico Hugo Chávez. Como se não bastasse, a população também vive com uma grave crise política e moral.
Para completar, pelo menos uma pessoa morreu e outras 60 teriam sido detidas, nessa sexta-feira (31/7), por causa de uma caótica tentativa de saque a um supermercado em San Félix, no estado de Bolívar, publicou o portal opositor 'La Patilla'.
Para o governador oposicionista do estado de Miranda, Henrique Capriles, as expropriações à propriedade privada 'são mais uma manobra do governo para criar maior caos no país', que terá eleições legislativas no próximo dia 6 de dezembro. Capriles também indagou sobre outras 293 empresas que o governo federal nacionalizou, desde a época de Chávez, e que, supostamente, não produziriam nada, segundo ele.
“Expropriar é roubar”; “defender a Polar é defender nosso direito a uma Venezuela próspera, segura e livre”; “meter-se com Polar é meter-se com Venezuela; seus trabalhadores encarnam nossa profunda aspiração de superação”, manifestou a ex-deputada María Corina Machado, também de oposição ao governo.
“Solidários com todos os trabalhadores de Polar. Trabalhar digna e livremente é também um direito humano”, expressou Lilian Tintori, esposa do ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López. Este é um dos principais opositores do Chavismo e está preso desde fevereiro de 2014, acusado de suposta incitação ao terrorismo, depredação de patrimônio público, por exemplo, por ter participado de um protesto contra Nicolás Maduro que resultou em 43 mortos e mais de 1.400 feridos.
Infelizmente, o atual cenário da Venezuela, e também da América Latina, é de desesperança política.
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