Domingo, 23 de março de 2014
Os eventos
Os eventos
Imagem: Agência Brasil / Fernando Frazão /
Reprodução / Creative Commons
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| Rio: manifestantes a favor da intervenção |
Manifestantes de algumas capitais do país – tais como: Rio, São Paulo e Recife – participaram, nesse sábado (22/3), da Marcha da Família com Deus pela Liberdade (foto 1) para protestar contra o comunismo e pedir uma nova intervenção militar no Brasil. O evento é uma reedição fracassada do que ocorreu em São Paulo, no dia 19 de março de 1964, poucos dias antes do golpe militar – em 1° de abril –, que à época teria reunido de 200 mil a 500 mil pessoas contra o socialismo e também contra o então presidente João Goulart. Enquanto o de agora, se tiver chegado a mil foi muito.
Com cartazes, em sua maioria verde e amarelo, os presentes protestavam contra o governo e a corrupção que já passou a fazer parte da rotina política do país.
No Rio, pelo menos 150 pessoas teriam participado. Houve confronto com direito a chutes e socos entre os que eram a favor da intervenção e os que eram contra (foto 2). Os primeiros gritavam “fora, comunistas” e “terroristas”. Já os opositores chamavam os integrantes da tal marcha de “assassinos” e “anencéfalos”. Estes últimos teriam contado com a presença de movimentos de esquerda e LGBT, por exemplo. A passeata aconteceu no Centro, na Avenida Presidente Vargas, noticiou a 'Agência Brasil'.
Já em São Paulo, cerca de 700 pessoas teriam ido às ruas pedir uma intervenção militar. Assim como no Rio, também houve a Marcha Antifascista, de oposição, que pedia “ditadura nunca mais”. Esses dois atos ocorreram próximos à Praça da Sé, segundo a 'Agência Brasil'. Em uma página no Facebook, mais de 48 mil usuários tinham sido convidados, sendo que apenas dois mil e 300 teriam confirmado presença.
E em Recife, pelo menos 30 pessoas pediam um Brasil “sem foice e sem martelo” (em alusão aos símbolos socialistas), publicou o jornal 'O Globo'.
Análise
Imagem: Agência Brasil / Fernando Frazão /
Reprodução / Creative Commons
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| Rio: manifestantes contra a intervenção |
Desde que o Brasil se tornou uma democracia há pouco mais de 25 anos – a partir da atual Constituição de 1988 –, tem chorado as mágoas de uma sofrida Ditadura Militar (1964-1985). A nação ainda vive em um estado misto de embriaguez social e esquizofrenia. Quanto a esta, tentando se libertar, e com traços de histeria coletiva. A onda de protestos que tomou conta do país em junho passado reflete bem isso. No que se refere ao 'alcoolismo' social há uma espécie de conflito interior na busca da identidade (esquerda ou direita) dopado diariamente por meio de uma política assistencialista que poderia acabar induzindo ao parasitismo social, como os programas de distribuição de renda, por exemplo, e assim, uma aceitação popular, sem generalizar.
É compreensível que muitos cidadãos estejam preocupados com o futuro do país, levando-se em conta que está sendo governado por um partido de esquerda há quase 12 anos no poder. E, claro, se observado os maus exemplos ocorridos nos vizinhos latino-americanos (tais como: Venezuela, Equador, Bolívia e Argentina) que hoje pagam caro por terem se curvado ao comunismo 'hecho en Cuba', que impõe o seu modelo de ditadura e despotismo sustentado pelas ilusões e misérias de um povo. Nada de 'made in Cuba', porque o subcontinente usa tal vertente ideológica para combater a influência estrangeira, em especial a estadunidense. No entanto, apoiar uma nova intervenção militar com o mesmo propósito que da vez anterior seria um retrocesso. Ou pior do que isso: justificar um erro por outro. Tais manifestantes adeptos a esse tipo de ação simplesmente perderam o senso de ridículo, talvez a razonabilidade, sob vários aspectos:
1) É muita pretensão intitular de a 'Marcha da Família com Deus pela Liberdade' por pressupor que Deus tivesse um lado. Falam de Deus, porém se esquecem de um dos 10 Mandamentos: o de não usar o nome Dele em vão.
2) Não há nada contra os militares nem a favor também. Mas, os militares daquela época não foram diferentes de nenhum outro governante comum: também se apaixonaram pelo poder e acabaram ficando por 21 anos. Quem garante que o feito não pudesse se repetir??? O fato de não se ouvir falar em corrupção não significa que não a houvesse. E, sim, que tal informação poderia também ter sido censurada. Era típico nos jornais impressos aparecerem espaços em branco ou até mesmo receitas de bolos, por exemplo.
3) Além disso, deslegitima e desmoraliza a busca por justiça por parte dos familiares de vítimas e, consequentemente, a Comissão Nacional da Verdade, instituída em 2012, que tenta contabilizar os mortos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988, antes, durante e pós-ditadura. Desse modo, a sociedade acaba se tornando cúmplice da carnificina e das violações de direitos humanos registradas no período ao reivindicar tal intervenção.
4) Bem ou mal, o Brasil ainda é uma democracia com suas imperfeições, uma vez que ainda está aprendendo a lidar com isso. Entretanto, a melhor resposta a se dar a um governo ainda é nas urnas. Vale lembrar que se o Partido dos Trabalhadores (PT) 'reina' há mais de uma década, é porque tem vencido de maneira democrática o processo eleitoral. E o fato de tanta corrupção estar sendo revelada não quer dizer que a legenda e/ou governo seja(m) o(s) mais corrupto(s), e sim que em uma democracia os casos – como o Mensalão – estão vindo à tona. O problema, talvez, esteja na fragilidade das leis em punir, no comprometimento do Legislativo em adaptá-las à realidade e na falta de implacabilidade do Judiciário.
A marcha ocorrida neste fim de semana deveria ser a da 'vergonha', não a da família, não só pela quantidade insignificante de participantes, mas pelo que se propôs a fazer. Em outubro próximo, em vez de fazer uma 'marcha' até a casa de praia ou viagem de férias, por exemplo, faça-a em seu colégio eleitoral. Esse é o melhor jeito de se manifestar em uma democracia.
Deposição presidencial na América Latina
A América Latina viveu, recentemente, dois casos de deposição de presidente da república:
Um deles foi o de Honduras, em 2009, por meio de um golpe militar que retirou o então presidente José Manuel Zelaya. Na época, até a Igreja Católica local teria apoiado a ação. O então mandatário – com fortes vínculos com o venezuelano Hugo Chávez – foi acusado de tentar violar a constituição para tentar se reeleger, ao promover uma consulta popular sobre reeleição, a qual já tinha sido proibida, de acordo com o site 'Leitura Subjetiva'. Dois anos mais tarde, o país já tinha novo presidente eleito democraticamente.
O segundo caso é o Paraguai, em 2012, com o impeachment ao então presidente Fernando Lugo, proferido pelo Congresso. Apesar das alegações de que não houve tempo suficiente para se defender, os parlamentares o acusaram de ser responsável por algumas mortes em um conflito entre camponeses e policiais. No ano seguinte, em 2013, a nação realizou nova eleição, conforme relatou o 'Leitura Subjetiva'.


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