Salve Jorge: a novela que nem o santo salvou

Enquanto voltava do Aeroporto Tom Jobim, no Galeão, Morena passava de táxi pelo Aterro do Flamengo para chegar ao Morro do Alemão, o que é impossível, porque são caminhos completamente distintos.

Não é novidade para ninguém, que a novela “Salve Jorge”, da TV Globo, não agradou ao público. Quer porque a trama sobre tráfico de pessoas não foi bem conduzida, quer porque estava cheia de falhas como a de personagens que sumiam e reapareciam do nada e sem qualquer tipo de explicação. Mas, não adianta ficar apertando essa tecla, porque já é clichê e todo mundo já havia apontado isso. Contudo, o que muita gente não deve ter notado é a gafe do último capítulo, que foi exibido nessa sexta-feira (17/5): Morena – personagem de Nanda Costa – junto com o amor, Theo – personagem de Rodrigo Lombardi –, quando voltaram da Turquia, desembarcaram no Aeroporto Tom Jobim, no Galeão, na zona norte do Rio, e seguiram de táxi até o Morro do Alemão, que fica entre Bonsucesso e Inhaúma, passando pelo Aterro do Flamengo, na zona sul.

Imagem: Divulgação

Linha Amarela, na altura da
Vila do Pinheiro, na Maré
Quem conhece a geografia carioca, sabe que é impossível sair do aeroporto localizado na Ilha do Governador e passar pela zona sul para se chegar àquela comunidade pacificada. O tempo médio entre o Galeão e o Alemão seria de apenas 20 minutos. E a paisagem não é nada agradável: só favelas ao redor, como as do Complexo da Maré, cujas vias compreendem a Linha Vermelha, a Linha Amarela e a Avenida Brasil. Nas duas vias com nomes de cores, por exemplo, há o “mural da vergonha” – umas placas de fibra com desenhos (foto) – colocado pela Prefeitura, que serve para esconder a horrenda paisagem ao fundo e tentar dar uma sensação de segurança aos milhares de motoristas que por ela passam diariamente e não querem ouvir tiroteio. E mesmo que desembarcassem no Aeroporto Santos Dumont, no Centro, também seria impossível passar pelo Aterro, não só por causa do caminho, mas porque o do Galeão é internacional, enquanto o que tem o nome do aviador, tem apenas os voos domésticos.

Segue, abaixo, o percurso utilizado do Aeroporto Tom Jobim (ponto A) até o Morro do Alemão (B), marcado por uma linha roxa.

Imagem: Google Mapas


E agora, o percurso utilizado do Aeroporto Tom Jobim (ponto A) até o Aterro do Flamengo (B), também marcado por uma linha roxa.

Imagem: Google Mapas


Mesmo com um tema de alta relevância, que é o tráfico humano, a novela já tinha tudo para não dar certo antes mesmo de ir ao ar no dia 22 de outubro do ano passado: a começar por suceder o grande sucesso de “Avenida Brasil”, o que foi impossível evitar comparações; em segundo, a campanha negativa feita por uma fiel da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no blog do bispo Edir Macedo, pedindo que os evangélicos não a assistissem sob a desculpa de que se trataria de um “deus pagão travestido de santo”. E sem contar que no decorrer dos capítulos, certas cenas incomodavam, principalmente a forma como a violência era mostrada, mesmo que o intuito fosse mostrar o que as reais vítimas costumam passar. A novela chegou a causar repulsa, e mesmo assim, muita gente assistia, não porque o enredo fosse maravilhoso, porém por estar habituada a seguir à risca a programação global, literalmente falando. Não dá para dizer ao certo onde foi que a autora Glória Perez se perdeu, pois as cenas que explicitam que ela estaria tentando se achar foram as da protagonista Morena tentando fugir da boate, por exemplo, e depois as da polícia desvendando segredos da quadrilha. Mas, nem o nome de santo serviu para salvar essa novela!!!

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