O preconceito a “Deus” provoca 2º turno em São Paulo

Segunda-feira, 08 de outubro de 2012

Apoio religioso pode ter tirado Celso Russomano da corrida à Prefeitura

Quando religião e política se misturam, podem-se esperar coisas imprevisíveis. Por exemplo, o apoio do líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), Edir Macedo, a Celso Russomano (PRB), que disputava até este domingo (7/10) a Prefeitura da capital paulistana. O que pode ter influenciando para que houvesse um segundo turno, e o candidato terminasse em terceiro lugar com 21,6% dos votos válidos. Agora, a corrida ao cargo será entre o ex-prefeito José Serra (PSDB), que conquistou 30,75% do eleitorado, e o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT), que obteve 28,98%, respectivamente, no próximo dia 28.

Em seu blog, o líder evangélico publicou alguns textos – de autoria de terceiros – criticando o petista, especialmente no que dizia respeito aos kits gays produzidos e as falhas ocorridas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) durante sua gestão. Num artigo intitulado “Desabafo da Revolta”, do último dia 3, por alguém que se identifica anonimamente como “Amigo”, este acusou Haddad de supostamente tentar afastar os eleitores dos valores fundamentais da vida. “São Paulo está cansada das mesmas caras, dessa eterna briga entre dois partidos, como se as milhões de pessoas que aqui vivem fossem um bolo a ser fatiado, hora para um, hora para outro. Me recuso a participar deste jogo onde os dados lançados por homens inteiramente sem compromisso com o certo, o justo, o verdadeiro, movem os "peões" que eles pensam que somos neste tabuleiro de cartas sempre marcadas”, disse.

Já neste domingo (7), outro artigo intitulado “Revoltada”, da autoria de Vanessa Lampert, também criticou o candidato do Partido dos Trabalhadores e destacou o apoio que a Iurd teria concedido quando Lula e Dilma Rousseff se candidataram para presidente. “Esperava esse tipo de baixaria do Serra, jamais do PT! Usar o medo e o preconceito que o povo tem contra a Iurd e o Bispo Macedo (medo e preconceito esses gerados e alimentados pelo PIG há vinte anos) para tentar barrar a candidatura de Russomano é ridículo! Dar trela para ‘ex’ qualquer coisa é estilo de jornalismo de Veja. Sério mesmo, estou decepcionada”, comentou.

“Política é um assunto de todos os cidadãos, estejam eles vinculados ou não a uma igreja. Porque fazemos parte de uma igreja temos de ser excluídos da sociedade? O fato de um candidato ser de um partido que tem membros de uma determinada igreja, não significa que aquela igreja irá participar do mandato! Se a igreja de vocês faria isso, me desculpe, a minha não faz. Como qualquer grupo, temos interesses em comum, mas nenhum deles é o de dominar o mundo, impor o cristianismo goela abaixo ou qualquer asneira que se diga por aí”, continuou Vanessa Lampert.

Recentemente, a ex-obreira da Instituição religiosa, Regiane Brito, de 22 anos, acusou sua antiga igreja de supostamente manipular os fiéis para que votassem em Russomano (vídeo), em benefício da construção do novo Templo de Salomão naquele estado, como a redução de impostos por meio de mensagens subliminares como a leitura do Salmo 10, número este da legenda do PRB. “Não tem que ter uma cabeça por trás de você pensando, você tem um cérebro, você tem que usar ele, entendeu? Colocar ele pra funcionar (...) me senti uma fantoche (...)”

Vídeo: Canal Post / You Tube / Reprodução


Em outubro de 2004, por exemplo, a Rede Record – pertencente à Iurd – ficou fora por 24 horas, acusada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) de supostamente ter feito propaganda subliminar a favor do então candidato à Prefeitura Marcelo Crivella – que estava no antigo Partido Liberal (PL) –, atual ministro da Pesca, sugerindo a leitura do Salmo 22, número de sua legenda.

Essas não foram as primeiras vezes e nem serão as últimas em que a religião tenta interferir/opinar na política: em outubro de 2010, por exemplo, a Polícia Federal teria apreendido cerca de um milhão de panfletos, supostamente encomendados pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – entidade ligada à Igreja Católica –, recomendando aos fiéis que não votassem em Dilma Rousseff para presidenta, ao alegar que ela seria a favor da descriminalização do aborto. Na mesma época, o pastor Silas Malafaia, da Igreja Vitória em Cristo, também teria deixado de apoiar à então candidata pelo Partido Verde Marina Silva, sob a mesma alegação, para fazê-lo em favor do tucano José Serra. Na verdade, houve uma necessidade por vários candidatos de se mostrarem “religiosos” pra não perder votos.

Quando um candidato deixa de ser visto como símbolo de melhoria à população para tornar-se referência de determinados grupos sociais, só quem perde com isso é a mesma e o próprio político. O caso de Russomano é um exemplo para realçar que ele acabou se tornando o candidato da Igreja Universal, com isso acarretando-lhe uma suposta discriminação por eleitores de outras religiões e segmentos político-sociais. Do mesmo modo que Haddad pode estar sendo tachado como o que está a favor do direito livre à sexualidade, entre outras coisas.

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