Funkódromo: Prefeitura está arranjando “sarna para se coçar”

Prefeitura do Rio pretende construir espaço voltado para o Funk em área próxima a favelas de diferentes facções criminosas

O Rio de Janeiro como uma cidade musical

Muita gente até hoje critica aquele “elefante branco” que fica entre as Avenidas Ayrton Senna e das Américas, na Barra da Tijuca: a “Cidade da Música”, que começou a ser construída em 2002 e foi inaugurada – mesmo inacabada – seis anos depois pelo então prefeito César Maia. A obra custou um pouco mais de R$ 500 milhões. E como prova de que não serviu mesmo para nada, o local está em processo de transformação para se chamar “Cidade das Artes” pelo atual governante, Eduardo Paes, a um custo de manutenção anual em torno dos R$ 25 milhões.

Só que no fundo, a “Cidade Maravilhosa” aos poucos está se tornando mais musical. Além dessa obra e da “Cidade do Samba” (na zona portuária, para abrigar as escolas de samba do grupo especial), há o projeto da “Cidade do Samba 2” (para alojar as agremiações do grupo de acesso, que terão que ser removidas do centro devido ao processo de revitalização). Por fim, a criação de uma “Escola da Rua”, popularmente chamada de “Funkódromo”. Os dois novos empreendimentos ficarão localizados em São Cristóvão, bem próximos à Avenida Brasil, sendo, portanto, praticamente vizinhos.

Como o objetivo deste artigo é falar sobre o “Funkódromo”, mantém-se então o foco: ele se localizará onde funcionava a fábrica da Rheem Química, implodida no dia dois de setembro. O local terá uma praça de apresentações, um museu do Funk, um estúdio de gravações e uma oficina cultural para aprender técnicas de baile (montagem, iluminação, som e a própria dança), além aulas de Webdesign. A ideia de um espaço para o gênero foi do vereador Luiz Carlos Ramos por meio do Projeto de Lei n° 731/2010. As obras só vão começar no ano que vem, com previsão de inauguração em 2014.

Realmente o projeto parece ser bem interessante, se não fosse por um simples detalhe: o local. Aquela região de São Cristóvão é bem próxima a várias favelas: as do próprio bairro, as do Caju , as do Complexo da Maré e as de Manguinhos. Para bom entendedor, um pingo é letra!!! Infelizmente, poderia acabar se tornando um lugar de rixas entre moradores de tais comunidades, considerando que cada uma delas é “controlada” por uma facção criminosa diferente, mesmo para aqueles indivíduos que não se misturam com tal tipo de gente. Utilizando uma linguagem chula: “a chapa vai esquentar”. Não é novidade alguma que tal coisa possa acontecer, porque, pelo menos na periferia, o estilo ainda é uma ferramenta de manipulação de traficantes, que se aproveitam para vender drogas e exercer sua influência diante dos moradores!!! Desse modo, a Prefeitura estaria, supostamente, arranjando “sarna para se coçar”. Basta fazer uma busca na internet, que será possível encontrar facilmente notícias sobre confusões em bailes Funk. Apenas o simples fato de morar numa favela rival, pode ser motivo de briga, ou de morte. Na cidade que recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) tem ladrões que às vezes perguntam à vítima onde ela mora, na maior cara de pau, para saber se podem/devem roubá-la ou não!!!

O Funk no inconsciente coletivo

Também não é novidade para ninguém que, até 2009, o estilo era considerado uma apologia ao crime. Só falta saber se um simples decreto estadual (n° 5.543/2009) foi realmente capaz de transformar a mente da sociedade. Em setembro daquele ano, o governador Sérgio Cabral tornou o estilo Patrimônio Cultural do estado. É importante salientar que, não há nenhum tipo de preconceito em relação ao Funk. Este como qualquer ritmo tem que ser respeitado. No entanto, precisa se respeitar antes: muitas das letras fazem apologia ao crime ao exaltar o poder do tráfico, e de forma vulgar e descarada narram um ato sexual com começo, meio e fim e em riqueza de preliminares. O que faz com muitas pessoas o associem à violência, ao sexo, às drogas e à criminalidade. Portanto, não se pode culpar os que ainda pensam assim, e sim aos MCs – sem generalizar –, que não fazem um mínimo esforço para mudar a imagem negativa que o mesmo tem, para provar que Funk e criminalidade são como água e azeite: não se misturam.

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