Honduras: governo ameaça tirar concessão de canal opositor

Domingo, 31 de maio de 2015

Hondurenhos pedem a renúncia do presidente citado em caso de corrupção

Imagem: Stockvault / Uso gratuito / Reprodução
Bandeira de Honduras

O Conselho Nacional de Comunicações (Conatel) em Honduras – órgão ligado ao governo – ameaçou, no último dia 25 de maio, tirar a concessão do canal de TV local 'Cholusat Sur' (canal 36), alegando que a emissora estaria atentando 'contra a segurança nacional e a ordem pública'.

A televisora pertence ao jornalista e deputado oposicionista Esdras Amado López, que é de esquerda. 'Cholusat Sur' tem feito fortes críticas à gestão do atual presidente Juan Orlando Hernández. Este mandatário enfrenta uma forte crise política, por conta de um rombo de 7,3 bilhões de lempiras – equivalente a US$ 300 milhões de dólares (mais de R$ 950 milhões na cotação atual) – no Instituto Hondurenho de Seguridade Social (IHSS), a previdência social. Pelo menos quatro pessoas estão presas. As denúncias de corrupção não param por aí: o Partido Nacional (PN), que é de direita, o do atual chefe de Estado, supostamente, teria recebido do IHSS cerca de US$ 90 milhões (mais de R$ 280 milhões) para a sua campanha presidencial.

“Assino o recebimento sob protesto, porque isso atenta contra a liberdade de expressão e é uma clara perseguição do governo terrorista de Juan Orlando Hernández”, expressou Amado López, ao ser notificado (vídeo) sobre a ameaça estatal, coincidentemente, no Dia do Jornalista naquela nação centro-americana.

Vídeo: Cholusat Sur / YouTube / Reprodução


Nesse sábado (30/5), milhares de hondurenhos realizaram uma marcha para pedir a renúncia de Hernández. O governo atribui as acusações a uma campanha de desestabilização promovida por partidos políticos e meios de comunicação opositores.

O mandato de Juan Orlando Hernández começou em janeiro de 2014 e está previsto para encerrar em 2018. No entanto, ele conseguiu por 4 votos a favor e 1 contra que a Corte Suprema de Justiça (CSJ) – o STF de lá – aprovasse o direito à reeleição. Algo que é considerado totalmente inconstitucional, conforme Artigo 239 da Constituição hondurenha. A legislação também veda que um ex-presidente retorne ao poder como vice-presidente.

Vale lembrar que o socialista José Manuel Zelaya foi deposto do cargo, em 2009, no que foi considerado um golpe de estado, porque tentou promover um referendo para saber se os cidadãos eram a favor da reeleição presidencial. Numa espécie de sequestro realizado por militares, foi deixado na Costa Rica. Não é novidade que Zelaya era muito próximo ao então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, o que gerou desconfiança sobre as reais intenções sobre a reeleição. Note-se que, à época, o golpe teve o apoio da Igreja Católica local.

Não custa nada lembrar que foi em Honduras onde o Brasil viveu um dos momentos mais constrangedores de sua diplomacia. À época, governado por Luiz Inácio Lula da Silva, este foi o primeiro a retirar seu embaixador na capital Tegucigalpa. O feito foi repetido por outras republiquetas sul-americanas como sinal de protesto. Zelaya retornou escondido a Honduras e buscou asilo político na Embaixada brasileira. Além de familiares, cerca de 400 simpatizantes se abrigaram lá em apoio. Serviços de água, energia e telefonia foram cortados por militares, inclusive o sinal de celular foi bloqueado, na tentativa de forçá-lo a deixar o local. É preciso deixar claro que Honduras violou descaradamente tratados internacionais. O incidente também demonstrou que o país não dava à mínima para o Brasil. Funcionários da diplomacia brasileira passaram fome e sede, porque os militantes – que se apossaram do local – não permitiam que eles comessem do que era entregue pela Cruz Vermelha Internacional. Foi preciso pedir socorro à vizinha Embaixada dos Estados Unidos, para que os servidores do Itamaraty em Tegucigalpa conseguissem deixar o imóvel cercado dia e noite por soldados. O Brasil – como gigante latino-americano nos mais diversos sentidos – deixou de exercer um protagonismo para se tornar o antagonista. Em vez de tentar remediar a crise, afundou-se nela. Somente após a posse do novo governante, Porfirio Lobo Sosa, em 2010, as relações diplomáticas foram restabelecidas.

De 2009 para cá, mais de 30 profissionais da imprensa foram assassinados em Honduras. Isso seria um dos reflexos da crise desatada com a deposição de Zelaya. O país é considerado um dos países mais perigosos das Américas – junto com o México – para o exercício jornalístico. No último dia 14 de maio, por exemplo, o radialista David Romero Ellner, diretor da rádio Globo de Honduras, teria recebido ameaça de morte, segundo a ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF). Este comunicador tem dado ênfase às denúncias de corrupção que envolvem o atual governo. Lá, para a alegria dos socialistas tupiniquins, tanto a rádio quanto a TV de mesmo nome são de esquerda e simpatizantes de Zelaya.

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